um dia com Bob Ludwig



Eu sempre achei q a coisa mais bacana de trabalhar com produção musical de artistas é a chance de estar com pessoas únicas e sensacionais. E hj passei por uma experiência assim.

Estou em Portland, pequena e simpática cidade do estado de Maine, nordeste dos Estados Unidos, o último estado antes da parte francesa do Canadá. Comparado com o calorão que peguei nas duas semanas de mixagem em Nova York, aqui faz um pouco mais de frio.


A porta na rua não mostra nada. Apenas uma pequena placa indica Gateway Mastering. Bob, como toda pessoa verdadeiramente talentosa e com alguma experiência, é super na boa e na dele. Tranquilo. Faz elogios a uma das faixas do álbum. Dá umas dançadinhas de vez em quando pra quebrar o gelo. Enfim. Sangue bom. Deve ter entre 50 e 60 anos. Ao olhar as paredes e paredes de discos de ouro, platina e diamante, começo a rir. "Tattoo you" dos Stones. "Synchronicity" do Police. Todos do Rush (ahahahah). Posters gigantes do Def Leppard (ahahahahah duplo). "Odelay" e "Mutations" do Beck (eischhhhhhh). "No Jacket Required", Phil Collins. "Brothers in Arms", Dire Straits. "Like a Virgin", Madonna. Vários álbuns do Nirvana e até paradas mais comerciais como Mariah Carey. Ele me conta que masterizou o Led Zeppelin II e Houses of The Holy. Umas demos pro "Electric Ladyland", do Jimi Hendrix, por encomenda do próprio. E mais importante pro povo da música eletrônica: muitos dos remixes de François Kevorkian no final dos 70. Bob Ludwig é um dos poucos caras q podemos chamar de lenda viva do áudio.





Ele me mostra uma foto dele com Les Paul, o sujeito que inventou o gravador multitrack ainda no final dos anos 40. Mais que isso. Me mostra uma foto de Les Paul com o primeiro gravador multitrack que produziu. Em cima do rack de hardwares um livro de 540 páginas, técnico no úrtimo: "Recording the Beatles", com todos os detalhes técnicos possíveis de todas as gravações do quarteto. Até o Bob paga pau.

O estúdio é simples no design mas tá tudo lá. Pé direito de uns 5 metros. Amplo e confortável. Com algumas plantas de um metro e meio de altura pra ajudar no clima. Usa três computadores. Um apenas de player, que passa por muitos hardwares de equalização e compressão, vai pra um segundo computador com um Nuendo (em Windows) pra adicionar plug-ins como o Vitalizer, e finalmente chegar no terceiro com um Pyramix (em Windows), onde fica a faixa masterizada e posteriormente montada. No centro do móvel principal, um console SPL MMC-1, analógico, de 8 canais, segundo ele o único nas Américas. Com oito unidades de VU analógicas, das quais usamos apenas duas, é claro. As outras são para projetos multitrack como DVDs 5.1 e até formatos maiores. Ao centro um medidor de pico digital de alta precisão, e um vetorscópio da RTW, que mede s fase e o formato do estéreo.

Duas marcas são onipresentes pra todo lado que vc olha no estúdio de Bob Ludwig: SPL e Manley. Da SPL várias unidades q eu nunca tinha visto com nomes tipo Tube Vitalizer, Loudness Maximizer. Da Manley vários Massive Passives. Alguns GML Mastering Equalizers. Um TC M6000 pra eqs de extrema precisão. Da Waves, sim da Waves, três unidades do L2 em hardware. Parece exagerado mas não é. Bob está preparado para projetos até em 7.1 apesar de me confessar que só conseguiu fazer um até hoje. Mas faz vários projetos 5.1. Todo estúdio que se preza tem que fazer DVDs pra poder pagar as contas. Apenas música não segura um negócio desse porte.

As caixas são uma parada à parte. Egglestone Works Ivy Reference. Hein? A altura das caixas, 2 metros pelo menos. Com oito falantes cada. Pra cobrir de 30 Hz a 20k. Sem precisar de subwoofer. E cobre mesmo. Fiquei pasmo com a resposta super plana e clara. Acompanhadas de um grupo de amplificadores Cello, q só pra ajudar, saíram de fabricação em 2000. E uma parada muito loca q parece com um aspirador de pó q segundo ele é um casador de impedância do além.



Bob trabalha em pé praticamente o tempo todo. Eu pergunto o porquê. Diz q por duas razões. A primeira é q acusticamente tem mais a ver com o jeito q as pessoas ouvem música. Concordo mutcho. E segundo porque como ele masteriza desde o início dos anos 70 o q ele mais fez foi corte de vinil. E como fazia isso em pé, simplesmente acostumou. Fazer o quê?

Tá bom pra tu? Pro Bob ainda não. Ele me faz colar o ouvido no tweeter enquanto nada toca. Caraaaaio, véio loco. Porra nenhuma. Tem razão. Mesmo com o volume todo aberto, praticamente zero de chiado. Bob explica o porquê. AC. Parte elétrica. O estúdio inteiro é alimentado por baterias especialmente encomendadas. Que produzem um 60 Hz perfeito, sem ruído nenhum da rede da rua. O q resulta num som sem nenhuma interferência de ruído, sem coloração. Enfim: perfeito pra masterização. Por favor, quem conhecer engenheiros elétricos fodões do Brasil, me apresentem. Quero investir nisso já!!!!

O trabalho de Bob é simples e apurado. Com suas ferramentas escuta faixa a faixa e procura tirar o melhor de cada, em frequências, em dinâmica. Eu acompanho tudo sentado a alguns metros pra não atrapalhar o loco. Em algumas faixas nada muda tanto assim. Mas num rock q fizemos no disco do Skank a diferença foi gritante! Fiz ele parar de trabalhar só pra cumprimentá-lo. E agradecê-lo, claro.



Mora na tranquila e doce Portland há quinze anos depois de ter trabalhado em Nova York desde o final dos anos 60. Começou como assistente do famoso produtor Phil Ramone. O figura é herdeiro de uma grande indústria da música que pôde financiar o seu trabalho, sua pesquisa, dedicação e investimento em equipamentos muito além da compreensão de qualquer ser humano. Tomara que no século 21 a gente continue tendo o privilégio de assistir à existência de profissionais do áudio do nível de Bob Ludwig.

15 comentários:

Serginho disse...

Uau. Isso que eu chamo de track record. Sensacional!

Muito legal o post. Como dizem os americanos em reunião do AA: thanks for sharing!

;)

Ronald disse...

boa Dudu...

o estudio dos sonhos, sem comentarios!!!

valeu

carlinho.s. disse...

Que grande prazer poder desfrutar da presença de grandes profissionais.
Sucesso.

Gabriel Savala/Campo Grande - MS disse...

faz muito tempo que eu to afim de fazer musica no computador mas a vontade ficou maior quando eu esbarrei nesse blog aqui, hoje eu achei um documentario beeem legal chamado reformat the planet e como vc compartilhou a experiencia de ter conhecido o (grande)ludwig com a gente eu tô deixando um link pra tu dar uma conferida, é uns malucos que fazer som com videogames antigos ( e agora eu quero um desses pra mim!)a té mais, esse documentario só fica disponivel por uma semana na pitchfork []'s

http://pitchfork.tv/week/reformat-the-planet/chapter-01

bofofo disse...

500 doletas a hora ?

dubplatsa disse...

esse aqui faz milagre com a rede elétrica: http://www.byknirsch.com.br/

Marcelinho CIC disse...

Amazing.....Muito Bom Dudu, experiencia unica na vida.......
Abraços

hhrportugal disse...

Sr. Eduardo , Parabens pelo trabalho.

Realmente deve ter sido um dia inesquecivel!!!!


Abraços

Hiper !!!!!!!

ricardo disse...

fala dudu,

e aquelas entrevistas como as q vc fez com o gui boratto, não rola mais?

abs

Anônimo disse...

Ele perguntou por mim?

Jota Wagner disse...

do caralho x 1000

lança logo uma revista, dudu!!

danipampuri disse...

demais!!!!!!!!!!!!!!

Alemão DJ disse...

Valeu Dudu!
Só há uma coisa a dizer:
SEN-SA-CIO-NAL!!!

E obrigado por compartilhar!

Good vibes.

Leo Fiorito disse...

Muito bom seu blog Dudu, já tinha sacado, mas ultimamente está melhor.

o Franklim Garrido, do IAV - São Paulo, é muito bom engenheiro elétrico e engenheiro de som também.

a parte elétrica é sim, muuuuiiiito importante.
me lembro uma vez que estava em casa, com um teclado MIDI e tirando um som, num certo horário...depois fui titar o mesmo som, no fim de tarde, horário de pico de energia e oscilações mil, e me parecia que o synth estava desafinado...muito louco, mas é essencial para ter a afinação que se quer.
abraços

Renato disse...

Parabéns pelo site e pela qualidade do conteúdo!!! Com relação as caixas citadas, na verdade possuem uma configuração isobárica e possuem 22 alto-falantes por canal...

Forte abraço,

Renato